des(despedida)
a paz reveste as paredes desse quarto cinza enfumaçado pelo tabaco ardendo frenético na minha boca. o aparelho de som emite ondas curtas que reverberam o compensado oco e frágil.
tenho os lábios ressequidos pelo tragar constante de cigarros filtro vermelho, a boca para sempre mais quente que o corpo branco e magro que estiro sobre a cama. à minha esquerda vislumbro o concreto mal coberto a menos de um metro de onde acaba o colchão.
no meu lado direito, alguns centímetros acima da cabeça, em uma perspectiva vertical do colchão encardido em que me deito, repousa um criado mudo envelhecido e fragilizado pelo tempo, comportando uma pilha imensa de livros que lhe curva as pernas.
sou maior que o leito. meus pés balançam os dedos quase anômalos de tão grandes, acompanhados de uma parcela da parte inferior de ambas as pernas, que flutua no ar.
e tenho paz, logo acima do sujo chão corroído pelo tempo.
você esteve ao meu lado por tempo demais para repousar tão confortavelmente além destas paredes fracas. meus olhos não te encontram ocupando o espaço esquerdo ocioso da cama, mas é como se nossos abdomens ainda contraíssem e relaxassem juntos, estando você no japão e eu aqui, efervescendo em sol tropical, no lado esquerdo de greenwich.
quero dizer com isso exatamente o que você pensa que quero dizer com isso. que estou fadado a te dar por presente, não importa o tamanho do vazio ocupando o destino dos meus próximos passos.
e a respirar metade do teu ar, onde quer que estejas. creio ser não mais que uma mistura das nossas células.
talves seja mesmo verdade que deixamos pedaços indivisíveis de nossos corpos, um no outro.
eu tento verter períodos sintaticamente coerentes sem a necessidade de incluir repetitivos e redundantes “você’s”, mas é fatídico que não há arte em mim depois de você, que não seja uma releitura dos teus rastros em mim.
deveras tenho observado que apenas meu corpo anda a se reconfigurar em função da tua ausência material entre estas quatro paredes, adquirindo gorduras que desfazem as formas do entrelaçar de nossos corpos.
o corpo não tem consciência da mente sobrenatural que o habita, difusa em toda e nenhuma parte das carnes que o compõem. não sabe nem de longe à que partes remotas e opostas do planeta e do além é essa entidade mental capaz de viajar.
e ela viaja constantemente até você, sentado justo ao seu lado em qualquer avião que pegues na pretensão de rasgar ares e encontrar a verdadeira solidão.
como amigo que já arriscou a jornada em busca da absoluta falta de companhia externa, aviso-lhe que não há meios ao nosso alcance para parir-nos um das entranhas do outro.
então é isso. não importa que os céus se pintem de vermelho encardido ou de chumbo temporoso. não importa que o vasto azul nos derrame raios ferventes de sol ou torrentes escandalosas de chuva densa e fria. não há céu, nem chão nem madeira enraizada no solo, no lugar onde ambos estamos, para sempre, ao alcance um do outro.