Enfermaria.

Posted in Uncategorized by Vinícius . on abril 25, 2009

-Foram por causa dos excessos, doutor?
Se é minha a culpa, se sou o motivo de toda a droga,
Se de mim veio a doença que anda a castigar, conte-me doutor. Se assim for, melhor é morrer que amar.

– As controvérsias, só elas.
A vontade de se jogar, quando reprimida, lhe causa essa agonia análoga à mágoa.

-Pensava que mágoa era viver.

– Viver é esquecer que se vive, cair no abismo, magoar-se com o que é impossível fazer e inevitável desejar.

– Eu desejei. Desejei cada segundo. Contraí o querer e expulsei o medir. Mergulhei no perigo, e voltei dele sensato, tão sensato. Há uma maneira, doutor, de acabar com a dor e morrer anestesiado?

– Anestesia é a doença. Sentiu tão pouco que, ao gozar de todo esse sentido, morres a cada dia, por amar um cais.

– Verdade. Tão claro, tão certo. Um cais. Amei o tempo todo a espera, pensando amar o desencontro.

– Morra na esquina segura do relento, é este o meu único conselho. Morra como quem amou, não mais como quem ama.

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Hábito.

Posted in Uncategorized by Vinícius . on abril 5, 2009

Habituei-me a pintar sentimentos em uma tela branca, ilesa, sempre a espera dos enormes borrões púrpuros que saem antes mesmo que a minha voz. Sinto tanto, incrível como sinto, que por saber da incapacidade de arcar com tamanha vulnerabilidade, dediquei esta obra, impecavelmente minha ao primeiro ser que ante a mim se puser, tendo como único critério, fazer parecer que a mim não pertence.

Essa obra, maldito registro do que em mim late, persegue-me incansavelmente, como as cicatrizes que eu reneguei.

Sinto fraqueza o suficiente para me tornar indefeso, uma vítima perfeita para meus próprios conceitos, cruéis para comigo mesmo. Temo, imensuravelmente, por abrir mão de parte tão grande de mim mesmo, e esperar que eu seja, aquilo que eu não tenho. Temo ainda mais por ser agora, ao que me vejo, um espectro moldado pelo tempo, de uma feição particularmente estranha, que quer eu queira, quer não, sou.

Faltam-me palavras, faltam-me descrições, pois só descrevo o que represento, só represento o que sinto, e receio que eu não mais sinta.

Cobro de uma forma injusta, realmente, ser visto por meio daquilo que represento, aquilo que sou aqui dentro. Engano-me constantemente, com esperanças que envolvem uma carga de possibilidade inteiramente baseada na piedade, piedade alheia.

Eu não vejo representações restritas ao que sou, restringem-se apenas ao que vejo. Vejo portanto, nos outros, estranhos ou conterrâneos, o que quero e não o que devo enxergar.

Proclamo acreditar na superação, ultrapassagem de empecilhos, quando na verdade acredito que tudo não passa de um mito.Tenho palavras pra cada coisa pertencente a um todo, mas tenho milhões de sentimentos para cada unidade como esta.

Enfim, nada mais a dizer, muito menos ainda a sentir.