Pedro,

Posted in Uncategorized by Vinícius . on fevereiro 15, 2011

Hoje é uma daquelas noites frias que vem logo após semanas de calor, lua cheia, bares lotados. Uma noite como essa só podia me fazer levantar e escrever essa carta para você. Justo hoje em que prometi ser o meu último cigarro aquele depois do jantar. Não sei escrever sem um cigarro, o plano era não escrever por um tempo. Acho que a abstinência de nicotina por duas horas encontra essa defesa, a de me fazer ter desejo não de fumar, diretamente, mas de escrever. Escrever para você, ainda por cima.

O fato é que saí, nessa noite fria, às duas da manhã, para comprar cigarros no posto de gasolina atravessando a rua. O senhor estava cochilando em frente a um episódio de algum seriado com tiros na pequena televisão em preto e branco. Arrastei os pés na calçada para não ter que chamá-lo como um viciado. Ele me entregou o maço de cigarros com uma cara de bunda daquelas que te fariam rir alto ao meu lado, desatravancando meu riso, me embaraçando, como costumava fazer nas madrugadas de cerveja e cigarros na calçada.  Bons tempos aqueles, não? Quando ainda ignorávamos o crescimento.

Você sabe como sou nostálgico e, somado à minha compulsão por filmes hollywoodianos, deve imaginar que até os postes de luz na rua doíam de olhar, tamanha a falta de você. Aproveitei os passos até o posto de gasolina para escutar mentalmente uma daquelas músicas que tocavam na nossa rádio. Nossa rádio, que besteira. O fato é que encontrei na internet o site e agora a escuto enquanto escrevo esta carta. Ela dói bem mais que os postes ou as pessoas no bar da esquina, rindo. Mais até que a lua cheia no céu. Mais do que escrever.

O fato é que te procuro nas ondas de rádio, nos cigarros, um atrás do outro, nos livros bobos com capas coloridas. Tenho lido vários deles, dos livros com capas coloridas que não irão para o cânone, dos que vendem por 19.90 em qualquer livraria de esquina.

A cidade é ótima para alimentar esse novo tipo de sofredor tosco que sou, nova espécie que encontra amparo em livros sobre pessoas medianas. Sou uma delas, afinal. Não seria a Ilíada a me consolar, portanto.

Você deve estar entendendo tudo, não é mesmo? Que eu estou escrevendo por ter arquitetado toda essa situação da falta de cigarros, da rádio de cidade pequena, dos livros coloridos na minha cabeceira. Verdade, eu sou uma fraude e também são meus sentimentos.

É preciso esse tipo de masturbação mental, para sobreviver nessa cidade longe de tudo e todos. Longe de você.

Eu sei que você nem existe, como eu acho que existe. É tudo mais uma das minhas arquiteturas.

Mas acho que te amo, talvez pela sua inexistência. É, te amo. E sinto falta de você, da música boba no rádio à dor abdominal quando olho para nossas fotos.

E desejo, da maneira mais boba e sem grandiosidades. que não fosse preciso estar longe.

Só sinto falta, só doi.

 

 

Em uma noite fria de lua no céu e carros nas ruas, num quarto pequeno e solitário,

Seu,

Vinícius

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Posted in Uncategorized by Vinícius . on fevereiro 13, 2011

“Eu estaria com você fossem outras as circunstâncias”

“É preciso ser um inteiro pra ser uma metade, não estávamos prontos”

“E quando estaremos? O que buscamos?”

“Estarei pronto quando respeitar a mim mesmo.”

“Nobody said it was fair”

Posted in Uncategorized by Vinícius . on fevereiro 13, 2011

A chuva caía entre meus passos solitários e eu dizia, em algum lugar inconsciente da cabeça, que há conexão com os céus, quando chove. Eu repetia involuntariamente essas palavras vindas de onde não sei e desbravava aos pés o concreto.

Os passos doíam e eu implorava por misericórdia, por paz que me arrastasse para longe de mim.

Eu quero encontrar o deus das gotas de chuva e lhe contar como é difícil andar sentindo-o e não poder tocá-lo.

Posted in Uncategorized by Vinícius . on fevereiro 12, 2011

O cigarro me abandonou numa noite fria. Queimou mais rápido que eu, se desfez de mim, me humilhou.

E eu não deixo de dar a ele meus lábios, pulmões e temores.

Posted in Uncategorized by Vinícius . on fevereiro 12, 2011

Tenho um quarto pequeno em uma grande cidade, guarnecido por livros não lidos e papéis amassados. É tanto de não feito que não há o que se fazer primeiro. E não há nada em que eu possa tocar, quando os pés adormecem e as pernas formigam, estirados na cama. É tanto inacabado em mim que acabo por não distinguir entre um grito interno e outro, acabo por não reagir, acabo por me deixar falir. Tenho alguns papéis em branco, reservados para escrever sobre aquele cara, sobre aquela vontade, aquele medo, aquele desejo, aquilo tudo.

Mas não escrevo, nem uma só palavra que seja. Por que me perdi e perdi todo aquele horizonte negro que me dava sempre um lápis em que apoiar todas as incertezas. Eu perdi contato com a voz muda em mim que gritava em palavras e rabiscos. Talvez eu tenha desistido de mim mesmo e essa ansiedade toda são apenas reflexos que antecedem a morte da consciência. Não sei.

O fato é que a noite segue escurecendo e os carros passando cada vez mais espaçados, na rua ao lado. As pessoas continuam sorrindo no desconhecimento de tantos desgastes, desapegos e temores, em quartos pequenos, na imensidão de tantas ruas. E eu continuo longe de quem fui e de com quem costumava ser. Eu continuo longe de lembranças que façam doer e de tudo que antes me fazia fingir estar vivo.

A dor me abandonou, e também o júbilo. Eu nunca vi mais do que dois pequenos passos a ser dados, mas nunca imaginei que além da dor houvesse outra forma de espasmo físico, como este que agora sinto.

As crianças estão crescendo, os velhos deixando de ser velhos e o tempo passando rápido na lentidão de uma vida. O andar da minha carruagem não conhece os cavalos que o conduzem. O andar em que me encontro não conhece tempo, conhece desperdício.

Estou sozinho além do que posso suportar.