Posted in Uncategorized by Vinícius . on agosto 18, 2011

Te amei ao ver teus olhos vastos entre os assentos do ônibus superlotado. A visão de ti por atropelos entrecortada – paixão no desconforto repentino da sobreposição caótica de corpos. Enquanto o relógio marcava o tempo que corria, atravessei teu nariz e caí nos lábios que, timidamente, sorriram. Desbravei em oblíquo teus cabelos bagunçados do mau tempo e a porta ainda se fechava quando vi teus lábios entreabertos, na tentativa de esboçar palavras, – “eu te amo”, me iludo.

Na rua cinzenta, entre pingos gelados de chuva, abortei de passo em passo o amor prematuro que, no espaço de tempo entre teus cabelos e boca, fecundara e sepultara.

gene

Posted in Uncategorized by Vinícius . on agosto 15, 2011

Teu único legado foi o vazio que ocupa todo o espaço e deixa o frio.

Tua única marca foi a ausência, e a busca, e o medo.

Só te vejo no espelho, todo dia, cicatriz que esfrego em vão

– não desaparece.

Prólogo do querer

Posted in Uncategorized by Vinícius . on agosto 11, 2011

Antes de tudo, quero teu sorriso. O mais bobo dos sorrisos, os dentes espalhados e o corpo contorcido. Mais do que a droga entre os dedos, escorrendo corpo adentro e amortecendo meus anseios, te quero inatingivelmente teu.

Mais que tudo, quero te querer por inteiro, o meu malefício, o meu benefício e o meu medo. Quero amar os teus erros, os bem feios, de me deixar doendo, os teus passos tortos, o teu dormir perturbado. Quero amar mais do que o espreguiçar bem cedo, que tortura e apaixona, ou teu caminhar esguio de cuecas pela casa.

Quero amar mais do que o teu bem. Te quero mau, me fazendo mal, maldizendo meus ídolos.

Mas, acima e antes de tudo, te quero sorrindo.

Posted in Uncategorized by Vinícius . on agosto 2, 2011

A fragilidade raquítica com que segurava o cigarro entre dedos magros, olhando para a chuva que caía além do parapeito, dissimulava a certeza há muito adquirida de que estava certo. Até mesmo os erros eram êxitos. Os abandonos, necessários.

Cada centímetro do ansioso corpo vibrava, incapaz de conter a empolgação com que esperava pelos dias, meses e anos que viriam. Desejava, mais que tudo, ser capaz de fazer eternos os segundos em que não temia, esquecido de nomear “tristeza” o sentimento que nunca o abandonava.

Olhava então para o vazio de livros empilhados do chão ao teto e sorria, de lábios timidamente alvoroçados, escorrendo parede abaixo, as costas agora no chão frio, para depois esticar, esticar e esticar os pés livres na solidão revolucionária.

Faces divisadas na penumbra: rostos conhecidos com cuja falta acostumara. Era preciso, entretanto, que os sentisse faltando, daquele jeito, sim, como pedaços do coração arrancados às pressas.

Cogitava o dia em que o silêncio e as certezas seriam tantos que iria, senhor dos seus anseios, escrever-lhes palavras doces, pegar o primeiro avião e distribuir abraços de senti-tanta-falta.

Não agora, não tão cedo. Era preciso permitir-se o vazio absoluto, passeando por entre cobranças esquecidas através de ruas movimentadas e cheias de vida, para depois enfurnar-se novamente num quarto vazio e frio (…)