Posted in Uncategorized by Vinícius . on abril 1, 2012

não resistia comparar suas dores e sua escrita às sensações expelentes de seus oríficios anatômicos.

dez horas da manhã

Posted in Uncategorized by Vinícius . on abril 1, 2012

Acordou às dez horas da manhã com dez reais na conta bancária. Levantara da cama de sempre, no quarto de sempre, apenas que agora coberto de um aspecto de sujeira incomum para o horário matutino. O aroma era de cigarro e incenso, que lhe agradava e o fazia questionar o próprio bom gosto. Paralelamente à sua cama, estendia-se um corpo feminino posto de bruços, dormentemente aninhado em um leito de cobertas.

Logo encontrou-se pobre, com cerca de quatorze dias à frente, para os quais dispunha de dez reais, dez míseros reais na conta bancária. Deu dois passos lentos até a porta da cozinha, que abriu, e experimentou o cheiro de mundo invadindo a fumaça com raios tímidos de sol. Procurava pelo motivo de ter apenas dez sobreviventes dentre os oitocentos do dia anterior.

Ao primeiro relance oblíquo em direção ao cenário da cozinha, deparou-se com infinitas latas de cerveja empilhadas, uma pia coberta de pratos, condimentos e caixas de pizza. Um bolo de chocolate estava sobre a mesa, espatifado certamente por dedos esfomeados e descuidados. Num prato resquícios de canabis em pontas babadas.

Entendeu. Sabia onde estava, por quê estava, acordara.
Percebeu a cabeça latejante, os olhos ardidos, até que foi puxado por uma força como que gravitacional através de seu sistema nervoso, para encontrar o estômago que muito doía, e a vontade (melhor dizer urgência) de defecar. Lavou-se em merda e começou a chorar.

Chorava as dores com tanta intensidade involuntária quanto a que o fez cagado das nádegas ao calcanhar do pé. Percebia-se dolorido por dentro, incapaz de regozijar-se, mesmo com aquele alívio sobrenatural que se sente ao cagar-se em função de uma dor de estômago.

A dor era de ser, de existir, na sua atual configuração.

Ela, a moça estirada na sala, estava igualmente cagada. Cagara-se tudo, sobrara nada, só dor, que agora era merda.