Posted in Uncategorized by Vinícius . on agosto 26, 2013

através das paredes vazias

vossos braços me atravessam

 

 

 

vossos olhos.

Posted in Uncategorized by Vinícius . on junho 9, 2013

eu tenho um sonho em que estou viajando de carro por infinitas horas na companhia de uma família dessas estranhíssimas com dinheiro. o pai dentista, a mãe médica, a filha mais velha morena e estudante de medicina com peitos siliconados, a mais jovem ainda pequena e de cabelos loiros, cantando insuportavelmente durante todo o percurso, enquanto a estrada infinitamente passa na reprodução inacabável de paisagens bucólicas ensolaradas vistas através do vidro escuro do carro blindado e gelado.

enquanto o tempo lá fora se esvai, minha vida deixa de existir quando me encontro imerso na impecabilidade da pele dessa gente, os poros quase impossíveis de encontrar, reluzindo como um alabastro meticulosamente encerado. por horas que não sei contar, estive dentro do carro chocando-me com os hábitos despreocupadamente dispendiosos que revelava sua narrativa transbordando opulência.

Posted in Uncategorized by Vinícius . on maio 11, 2013

com um longo arfar encheu pela primeira vez os pulmões de um ar altamente diluído em solidão.

Posted in Uncategorized by Vinícius . on abril 11, 2013

estou num barco de ritualísticos hábitos navegando o meu mar adentro,

sentado a admirar languidamente a paisagem das complicações inevitáveis, 

estarrecido pela conjunção inalcançável dos nexos,

tomado da insignificância de ser mais um no todo complexo do povo.

 

Posted in Uncategorized by Vinícius . on março 11, 2013

Espera-se dos desfechos que sejam robustos, incômodos, manifestos de conclusividade máxima. Da percepção, concebe-se que seja repartida em atos, um de cada óculos, cada quadro com seu traço, os panoramas diversos, ampliados ou reduzidos a especificidades, desenrolando a trama dos fatos que, aleatoriamente, assume-se reais. Os clímax são vários, encerrados em espaços na teia do tempo que dilata-se infinita e disformemente. Há clímax de dores, um legítimo elefante na sala, acompanhado sempre de cólicas e hematomas traumáticos inacreditavelmente preguiçosos de sarar, mas também há clímax sutil, que toma sorrateiramente a cena, deixando o espectador nauseado pela mudança tímida porém grandiosa.

As luzes são as primeiras a mudar, algumas deixando de incomodar pelo amarelo compressor, outras deixando de ser frias pela sua alvura. O calor do corpo redistribui-se lentamente, alterando por conseguinte o toque, tornando menos ásperas as superfícies, solidificando o chão em que repousam os pés. Os nervos reacomodam-se e as energias recebidas são mais e outras, várias. A respiração atravessa o corpo na obstinação de se fazer percebida, e a percepção da sua presença apavora e confere o poder do controle total de estado, mesmo que sonegue os meios pelos quais atingi-lo completamente. A agonia do futuro é agora suprimível e o estar permite a existência do ser. As presenças deixaram de ser efêmeras e a concretude da liberdade é absoluta.

Os olhos recém turvados encontram outros cujos quadros são próprios, únicos e indizíveis para a percepção alheia. O contato verbal os confunde e o calor dos corpos difere em poucos graus quando as peles se entregam à roçadura enérgica que os compartilha – tecidos, órgãos, esqueletos, fluidos, resíduos, cheiros – entre si. O desenlace gera então os reflexos inacomodáveis da presença de um em outro, as percepções simultaneamente alteradas pelo uníssono dos gemidos ofegantes.

 

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Posted in Uncategorized by Vinícius . on fevereiro 5, 2013

Muitas vezes o silêncio parecerá com os que compartilhamos juntos, o ar se encherá de sons do passado, o seu cheiro ficará na sala e uma lembrança será enterrada.

Posted in Uncategorized by Vinícius . on fevereiro 5, 2013

De repente, não mais havia tempo, e pessoas avulsas embriagadas de amor e vinho ocupavam o quarto-sala de estar, cantando hinos de liberdade. Elidiram a sequência tediosa dos segundos impostos e encontraram invólucro de tempo próprio em que acasular-se. Na noite eterna de palavras constiparam-se ao redor de úteros verborrágicos. Beijavam-se como se fim fosse, entrelaçavam-se como se nós, estavam como deveriam.

Posted in Uncategorized by Vinícius . on janeiro 13, 2013

de omitir delitos encontra no caminho portas fechadas contra o ímpeto que escancara seus receios e falha em remendar o defeito dos passos lentos em direção ao último negociante. não vende à vida o direito de vivê-la imediatamente,

de costas para o roteiro

todo dia,

todo dia a agonia do porvir o faz menor,

vivendo na pequeneza dos dias comuns,

início, meio, fim, todo tempo.

Posted in Uncategorized by Vinícius . on dezembro 12, 2012

há estribilhos quando nascemos,

rédeas quando engatinhamos,

correntes quando nos erguemos,

presilhas o dia inteiro.

há medo das palavras,

do vento, do desemprego e do cheiro.

apavoramo-nos com o sujo e derradeiro fim dos suprimentos.

corremos contra o nó desenrolando a língua de quereres proibidos.

Posted in Uncategorized by Vinícius . on novembro 21, 2012

encheram-se os olhos de Tereza de solidão quando o quarto esvaziou-se dos visitantes e a janela dava passagem a um vento congelante. queria que os calores fossem indissipáveis ou que as presenças não deixassem para trás a ausência. temia que o menor movimento de dedos destampasse o boeiro de aflições que sentia crescendo logo abaixo dos pés e sublimasse o peso do corpo, por isso permaneceu calada até que as horas esquecessem da passagem e algum conforto lhe permitisse atravessar o cômodo para lacrar a janela.

na imutabilidade dos fatos que desenrolavam-se a despeito de sua inércia caminhava velozmente por espaços que só a si reservara, no mais empoeirado canto do labirinto sorrateiramente soerguido de pensamentos, enquanto cantava um homem ao fundo da sala escura revestida de madeira, sentado na acinzentada poltrona corroída pelo desenrolar dos acontecimentos já então esquecidos, cada nota referente a um lamento. Tereza muito jovem resignara-se ao posto de analista passiva dos movimentos alheios, e era também agora incapaz de mover-se através dos cenários maquinados pelo cérebro inerte em ouvidos que a tudo sempre repararam, timtimportimtim.

estavam agora, em alguma sala anexa, cabelos desgrenhados por suor afrodisíaco que emolduravam olhos profundamente ensanguentados de paixão correndo vertiginosamente por nervos que reverberavam-se em movimentos frenéticos contra a pele da imóvel Tereza agonizando em tesão escaldado pela espera dos lábios fraternos que continham-se de respeito mesmo que flagelados pela atração. pulularam as têmporas e o calor elidiu as vergonhas. Tereza agora era perdição no cruzamento de veias salientes entre poros vertendo incontenção.